quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

OS DESAFIOS DA INCLUSÃO ESCOLAR

Entrevista sobre "OS DESAFIOS DA INCLUSÃO ESCOLAR" com a pedagoga, psicopedagoga, mestre, doutora em Educação e professora adjunto da UnB - Universidade de Brasília, Silvia Ester Orrú, concedeu ao Jornal "A Tribuna JEC (Jornal Escola Comunidade)", onde esclarece dúvidas sobre a "Inclusão Escolar" nas escolas públicas e particular, nos dias de hoje.




A ENTREVISTA

Foto: Os desafios da inclusão escolar
Prof.a Silvia Ester Orrú


- Qual o maior problema das escolas quando o assunto é inclusão escolar? 

Creio que seja a concepção equivocada e empobrecida de inclusão escolar que temos. Inclusão não é apenas o educando ter acesso ao espaço físico da escola. Ele precisa ser acolhido com generosidade, solidariedade e consciência cidadã por parte da comunidade escolar. Precisa se sentir parte do grupo e ter as mesmas oportunidades em seu processo de aprendizado. 


- Há diferenças na inclusão escolar entre escolas públicas e privadas?

As escolas são constituídas por professores, funcionários, educandos e pais. Ou seja, o ser humano faz a escola. Ambas as escolas costumam ter monitores para auxiliar os professores junto aos educandos com algum tipo de dificuldade de aprendizagem. Quando este monitor simplesmente retira o aluno da sala de aula pelo professor entender que o aluno não está aprendendo, o crime da exclusão está sendo praticado. Portanto, a diferença somos nós mesmos que fazemos em qualquer espaço físico. 


- A inclusão escolar funciona de verdade em nossas escolas?

Se não houvesse tantas formas de exclusão, não precisaríamos falar de inclusão. Lamentavelmente há inúmeros relatos de exclusão nas escolas. Aquela exclusão que é muitas vezes silenciosa. Repleta de barreiras atitudinais compostas pelo nosso preconceito e discriminação. Quando compreendermos que todos somos realmente diferentes e que todos nós temos diferenças em nosso processo de aprender, então não precisaremos mais falar de inclusão. 


- Como a escola deve lidar com alunos que sofrem preconceito?

A questão maior é como lidar com aqueles que promovem preconceito. Precisamos ter projetos que aborde junto a comunidade escolar temas diversos onde o preconceito está presente. A conscientização sobre amor, respeito, solidariedade, generosidade, individualidade, coletividade com relação ao "outro" precisam ser trabalhados de maneira contínua nas escolas para educarmos cidadãos contrários a todo tipo de violência. 



- As escolas estão preparadas para lidar com alunos deficientes?

Eu pergunto: nossas escolas estão preparadas para promoverem uma educação de qualidade para todos? O Brasil está em 88º lugar no ranking mundial da educação. Portanto, não é o educando com deficiências que "dá mais trabalho" ao professor. Temos alunos com dificuldades de aprendizagem de modo geral. Nossas escolas precisam mudar sua pergunta: ao invés de se perguntarem como temos que ensinar, devem se perguntar - "como é que meu aluno aprende?" A partir dessa pergunta estaremos preparados para enfrentar os desafios do processo de ensinar e aprender com qualidade para todos. 


- Qual o papel do professor na inclusão escolar?

O professor tem um papel central nesse processo. A desculpa que "não estamos preparados" é inaceitável. Já imaginou um médico cirurgião se deparar em um pronto socorro com uma pessoa gravemente acidentada e dizer: "não estou preparado para atender essa pessoa"? Enquanto um erro médico pode tirar a vida física de alguém, nós professores a cada momento podemos matar a esperança, aleijar a autoestima, deixar sequelas psicológicas em nossos alunos. Portanto, o papel do professor é ensinar a todos e promover uma atenção diferenciada para a superação das dificuldades no processo de aprender de seus alunos. Para essa atenção diferenciada existe uma metodologia a ser desenvolvida a partir do feedback do estudante, não é simplesmente ficar mais 10 minutos ao lado do aluno. 


- Qual é o papel dos pais na inclusão desses alunos?

A parceira pais e escola é fundamental para o êxito no aprendizado de todo aluno. Os pais precisam ter consciência de que a responsabilidade de educar é deles. As crianças, jovens e adolescentes precisam de atenção e tempo disponível dos pais. Muitos pais deixam seus filhos às 8 horas da manhã e os buscam às 18 horas nas escolas, fica para esta a tarefa de educar e ensinar. Aos pais cabem a educação plena de seus filhos, a atenção nos processos de superação de dificuldades no processo de aprender, o amor incondicional que também diz "não" ao filho quando necessário. Aos pais cabe apoiar o professor sempre que solicitado e acompanhar o processo de ensino-aprendizagem de seus filhos de maneira responsável. 


- Como é possível aumentar o acesso de estudantes com necessidades especiais às escolas comuns? 

Por lei os estudantes já tem garantido esse acesso às escolas públicas e privadas. É crime não efetuar a matrícula desse aluno na escola por preconceito. Efetivamente, precisamos de um projeto de educação que seja maior que as pessoas, maior que as políticas, maior que o preconceito por diferenças. Precisamos que nosso Governo realize um projeto de educação para a Nação brasileira. Não diferente, as escolas precisam retirar suas lindas propostas teóricas do projeto político pedagógico e colocá-las em prática. Como exemplo, exercer o amor pela educação defendido por Paulo Freire, privilegiar as relações sociais nos espaço escolar como foi dito por Vygotsky. Precisamos de profundas transformações dentro de nós mesmos sobre as necessidades e diferenças do "outro" para construirmos a cada dia uma educação de qualidade que inclui, que acolhe, que flexibiliza métodos de ensino e avaliações. Assim aumentaremos o acesso de todos a todas as escolas. 


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    Um pouco sobre a Prof.a Sílvia Ester Orrú Possui graduação em Pedagogia, pós-graduação em Psicopedagogia Clínica e Institucional, mestrado em Educação e doutorado em Educação (UNIMEP-2006). É professora Adjunta da Universidade de Brasília - UnB. Atua na Faculdade de Educação, Departamento de Teoria e Fundamentos, como professora da área da Educação Especial e Inclusiva. Tem experiência na área de Educação, com ênfase em Formação para a Docência atuando principalmente nos seguintes temas: educação, formação de professores, educação especial e inclusão, educação e constituição da linguagem de pessoas com autismo, Transtornos Globais do Desenvolvimento.



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